Carta 5
19 de Agosto de 2026
Olá, Dila,
Hesitei bastante sobre o dia 31 de Julho de 1977, dividido entre o dever da veracidade e a tentação de censurar a narrativa do diário. Inquietava-me a ideia de que te pudessem magoar as palavras cruas daquele rapaz de dezassete anos, no momento em que começava a desvendar realidades que até aí desconhecia.
Este dilema nasce da memória desse tempo: quando o António te acompanhava, nunca te olhou senão com a mais pura e sincera amizade, sem qualquer sombra de desrespeito. Mesmo quando surgiu aquele sobressalto com o Manel — a necessidade de se casar pelas razões conhecidas —, ambos compreenderam o peso da situação e mantiveram-se unidos no mesmo rumo.
Mas o tempo passa. O António cresceu, amadureceu — se assim se pode dizer — e passou a encarar a vida sob uma nova perspectiva. Após a vossa separação, ele andou à deriva, e custa-me imaginar a dor que isso terá causado à Dila. O António deixou de crer em si próprio e trancou o próprio coração. Para não mais sofrer, e receando ser fonte de mágoa para alguém, preferiu afastar-se de tudo e de todos, recolhendo-se ao silêncio.
Foi o Manel o porto seguro que o resgatou desse isolamento. Pouco a pouco, o António foi deixando as sombras e começou a integrar-se num mundo que afirmava não ser o seu. Com alguma relutância, lá se foi enquadrando num novo espaço, entre novas faces e outras experiências.
Sempre tímido, incapaz de dar um passo fora da sua rotina, viu a Rosalina — a "Lina" — entrar no seu círculo. Mais experiente e sabendo bem o que queria, ela soube conduzi-lo. De certa forma, o António foi manipulado:
• Começou por confessar ao Manel que gostava do António, mas pediu-lhe segredo quanto à sua identidade;
• Aproximou-se dele e começou a envolvê-lo numa teia de atenções;
• Procurou, aos poucos, atraí-lo para a sua órbita;
• Isolou-o dos outros para ficarem a sós;
• E o primeiro beijo... algo que ainda hoje me deixa desconfortável... foi ela quem lho deu, apanhando o António de surpresa.
Tudo o resto pertence à narrativa dos diários. O dia 31 foi minuciosamente planeado... por ela. Estarei a tentar proteger o António? Não me parece, pois a verdade coloca-o numa posição bem mais vulnerável do que a dela. Quando escreveu sobre esse dia, ele sentia-se confuso, mas também...
Porque te escrevo?
Apenas porque receio que a linguagem usada te possa ferir. Garanto-te, porém, que busquei a contenção nas palavras.
Espero que entendas.
Um amigo do passado... no presente,
António
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