Conversas que ficam

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Terça-feira, 16 de Agosto de 1977

De manhã, depois do pequeno-almoço, retomei a minha actividade de escrever as katas. Já tinha passado algum tempo desde que começara a dedicar-me a isso e continuava a encontrar interesse em organizar os movimentos, pensando no modo como poderiam ser executados. Perto do meio-dia apareceu o Manuel, o que me surpreendeu, pois, julgava andar a trabalhar. Afinal, já se tinha despedido e essa era a razão daquela visita inesperada. Quando foi embora, nem cheguei a almoçar. Voltei às katas e continuei a escrever até às duas horas.

Depois fui ao centro, mas não fiquei muito tempo. Aborreci-me com alguns elementos do grupo coral e acabei por regressar. Ainda estive algum tempo com o Manuel e depois voltei a casa, onde continuei a escrever as katas até ele aparecer novamente para treinarmos. O treino durou aproximadamente uma hora, talvez mais. Quando o Manuel foi embora, continuei a trabalhar no que tinha começado e só depois parei para ver um pouco de televisão.

Houve ainda uma discussão com o meu pai. O Victor, por mero acaso, assistiu a parte dela. Não me apeteceu continuar em casa depois disso e saí. Aproveitei para ir até casa do Manuel e, mais tarde, fomos os três passear. A conversa acabou por tomar rumos que não eram propriamente os de uma conversa de ocasião. Falámos de guerra, religião, sociedade e amor. Assuntos diferentes, mas que, de uma maneira ou de outra, pareciam andar todos ligados às preocupações que tínhamos naquela idade.

Acompanhámos o Manuel a casa e depois o Victor trouxe-me a mim. Quando fiquei sozinho, pensei um pouco na conversa. Era curioso como podíamos passar uma parte do dia preocupados com coisas tão concretas como escrever uma kata ou discutir com o pai e, poucas horas depois, estar a falar de guerra, religião ou amor como se estivéssemos a tentar compreender o mundo inteiro.

Talvez estivéssemos mesmo a tentar. E talvez, sem darmos por isso, estivéssemos também a tentar perceber aquilo que começava a acontecer dentro de cada um de nós.


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