Entre o estudo e a noite

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Sexta-feira, 19 de Agosto de 1977

Após levantar-me e tomar o pequeno-almoço, retomei o estudo das minhas técnicas de Karaté. As horas passaram ocupadas com a mesma matéria e, à uma hora, parei para almoçar. De tarde continuei até às quatro. Nessa altura já estava cansado e deitei-me a ouvir música, deixando que o som fizesse por algum tempo aquilo que eu já não tinha vontade de fazer. Mais tarde lanchei e entretive-me a gravar algumas músicas do rádio. Foi uma ocupação simples, mas gostei daquele momento em que uma canção fica presa na cassete e passa a ser minha, pelo menos um pouco.

No fim da tarde o Manel pediu-me para ir com ele a casa da sua outra pretendida, para lhe levar um guarda-chuva. Fui com ele e, no caminho, passei pela Lina. Falei um pouco com ela antes de vir embora. A chuva acabou por impedir o treino e o dia ficou assim, mais parado do que o habitual. Há dias que parecem feitos para avançar e outros que apenas nos deixam ficar.

À noite, depois do jantar, fiquei com o meu pai, a minha mãe e a minha irmã a jogar às cartas. A brincadeira prolongou-se e, quando damos por isso, já estavamos perto da uma da manhã. Eu estava prestes a começar a escrever quando o meu pai me chamou. Estavam novamente tentar roubar o capoeiro. Saí à pressa e fiquei de guarda com ele.

É estranho pensar que, depois de um dia inteiro entre estudo, música, amigos e Lina, termino a noite de vigia ao lado do meu pai, à espera de que alguém apareça no escuro. A vida não parece ter uma linha direita. Num momento estamos a pensar em coisas que nos parecem enormes e, pouco depois, estamos simplesmente ali, atentos a um barulho qualquer no quintal.

Num momento de fuga, aproveito para vir escrever. Talvez seja por isso que estas páginas acabam por existir. Mesmo quando o dia não me deixa espaço, encontro sempre um pequeno intervalo para regressar a mim próprio.


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