Quando o dia se estraga por dentro
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Domingo, 7 de Agosto de 1977
De manhã levantei-me, tomei o pequeno almoço e o Victor veio chamar-me para irmos à missa. A manhã passou sem nada que me fizesse pensar que o resto do dia haveria de ser tão diferente.
À tarde vi um pouco de televisão e o Manel veio fazer-me companhia. Depois fomos para a biblioteca, onde já se encontravam a Lina e a Tereza. O que podia ter sido uma tarde tranquila acabou por se tornar bastante desagradável por causa do Manel. O sentimento que tinha pela Tereza estava a deixá-lo tolo e ciumento, e a presença dela parecia ser suficiente para o pôr de mau humor. Eu e a Lina tentámos aproximá-los e, ao fim de algum tempo, conseguimos que as coisas melhorassem. Enquanto os dois se entendiam, nós também estávamos cada vez mais próximos. A nossa relação já não precisava das mesmas explicações que a deles.
Mais tarde, o Manel acompanhou a Tereza a casa e eu acompanhei a Lina. Estar com ela depois daquela tarde foi um alívio. Havia uma diferença grande entre a agitação que o Manuel tinha provocado e a tranquilidade que eu sentia quando ficava sozinho com a Lina. Talvez por isso eu desse cada vez mais valor a esses momentos.
Depois do jantar fui chamar o Manel e, mais tarde, fui esperar a Lina. Quando nos encontrámos, ela contou-me uma coisa que me deixou imediatamente inquieto. Alguém tinha ido dizer à mãe dela que eu não me estava a comportar bem com ela.
A notícia caiu-me mal. Fiquei preocupado e aborrecido. Não sabia quem tinha dito aquilo, nem exactamente o que tinha sido contado, mas bastava pensar que a mãe da Lina poderia estar contra mim para me estragar a noite. Afinal, aquilo que eu vivia com Lina não dizia respeito apenas aos dois. Havia agora outras pessoas a olhar para nós e a formar opiniões sobre aquilo que fazíamos.
Fomos para a festa, mas eu já não estava com a mesma disposição. Havia barulho, pó, os cantores com os seus terríveis «miados» e desafinações que pouco ajudavam. Os altifalantes pareciam contribuir ainda mais para o meu aborrecimento. A Lina também estava preocupada e aborrecida com o que tinha acontecido. Percebi que aquilo a afectava tanto como a mim e, pelo menos por alguns momentos, senti que estávamos do mesmo lado.
Quando chegou a altura de a levar a casa, ainda trazia comigo aquela preocupação. Foi então que a irmã mais nova da Lina conseguiu pôr-me novamente bem-disposto. Uma coisa pequena, quase insignificante depois de tudo o que tinha acontecido, acabou por mudar o meu estado de espírito.
Vim embora mais tranquilo, mas a história ficou comigo. Até então, a relação com a Lina parecia pertencer sobretudo ao nosso pequeno mundo. Agora começava a perceber que, quando duas pessoas se aproximam, há sempre olhos de fora que podem transformar uma coisa simples num problema. E eu não gostava nada dessa ideia.
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