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Sexta-feira, 27 de Maio de 1977
Levantei-me um pouco mais tarde do que era costume.
Por momentos pensei que voltaria a chegar atrasado, mas consegui recuperar o tempo e entrei no liceu pouco antes da campainha tocar.
As três aulas da manhã passaram sem novidade.
Consegui acompanhar a matéria e responder quando fui chamado. Era curioso como, enquanto os professores explicavam a lição, tudo parecia voltar ao lugar. Bastava sair da sala para os pensamentos regressarem.
Terminada a terceira aula, vim embora.
Passei por casa apenas para mudar de roupa e voltei ao Porto.
Fui almoçar ao liceu e, quando acabei, segui para a Electro Povo.
Precisava de renovar o passe para o mês seguinte e lembrei-me de perguntar à Rita se também precisava que lhe tratasse do dela.
Sorriu com a simplicidade de sempre.
— Fazias isso por mim?
— Já que vou tratar do meu, não custa nada.
Entregou-me o dinheiro e os documentos.
Agradeceu-me com uma naturalidade que me deixou bem-disposto.
Na Electro Povo tudo parecia simples.
Falava-se de trabalho, da escola, de pequenas coisas do dia-a-dia.
Ali ninguém fazia perguntas que eu não soubesse responder.
Depois de tratar dos passes passei pela Biblioteca Municipal.
Encontrei um colega e estivemos algum tempo a consultar livros para os exames que se aproximavam.
Antes de regressar à loja comprei uma pilha para a máquina de calcular.
Quando voltei, a Rita andava atarefada.
Fiquei algum tempo a ajudá-la em pequenas tarefas, enquanto o senhor Narciso aparecia de vez em quando para trocar duas palavras connosco.
Pouco depois das sete despedi-me deles e fui para a Academia.
O treino foi exigente.
Quando o corpo começava a cansar-se, a cabeça deixava de ter espaço para pensar noutra coisa.
Durante aqueles momentos existiam apenas os movimentos, a respiração e o esforço.
Ao sair da Academia senti um cansaço bom.
Regressei a casa já de noite.
Jantei e fiquei algum tempo à conversa com o meu pai.
Falámos de assuntos sem importância.
E talvez fosse precisamente isso que eu mais precisava.
Ao deitar-me, ocorreu-me que os meus dias começavam a encher-se de pequenas ocupações.
Estudar.
Ler.
Treinar.
Passar pela Electro Povo.
Ajudar no DIFI.
Era como se procurasse manter cada hora ocupada.
Porque começava a perceber que era precisamente nos momentos em que não tinha nada para fazer que o silêncio voltava a instalar-se.
E eu ainda não sabia o que fazer com ele.
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