A alegria de viver não passa de um luxo

Sábado, 25 de Março de 1978

Estou doente.

Não sei bem o que tenho. Sei que tive uma coisa na cabeça ou talvez um enfarte, disseram, ou uma coisa parecida, uma coisa que me secou as ideias. As ideias que eu tinha tão minuciosamente canalizadas secaram como éter. Agora sou um poço fundo e seco. Uma pedra na escuridão.

Fiquei na cama o dia todo. Não me apeteceu levantar. Não me apeteceu comer, nem ler, nem falar. Fiquei a olhar para o tecto, a ouvir a casa, a sentir o corpo pesado. Não é dor. É ausência.

O tempo, a alegria de viver, não passa de um luxo que só aos outros diz respeito. Estou canalizado no tempo, entupido, o tempo que não me deixa viver nem morrer. Sou um morto vivo, desterrado para toda a vida. Balouço-me em corda bamba, sem nunca cair nas profundezas da poluição social. Poluição viscosa, arrepiante, detestável. E, no entanto, estou votado a uma morte viva, à crueldade do futuro.

Escrevi isto e não sei se faz sentido. Provavelmente não faz. Mas é o que sinto. Não é uma coisa que se explique. É um vazio.

Não sei se estou doente do corpo ou da cabeça. Se calhar é a mesma coisa. Se calhar, o que eu tenho é o que ontem não disse. Se calhar, o corpo cobrou o que a boca calou. Não sei. Hoje não sei nada. Amanhã, se conseguir levantar-me, volto à vida. Se não conseguir, fico aqui.



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