Castidade poluta
Sexta-feira, 24 de Março de 1978
Hoje, eu e o Manel estivemos juntos numa conversa muito particular. E, por fim, cheguei a saber o que tanto me oprimia.
Sempre pus dúvidas à castidade da Lina. Não é uma coisa que se diga, mas é uma coisa que se pensa, e eu pensava-a. Hoje, o Manel disse-me o que sabia. Não vou escrever o que foi. Não é preciso nem é digno.
Recebi a notícia com sangue-frio. Sorri, até. Um sorriso nos lábios, como se já soubesse, como se aquilo não me tocasse. Mas o sabor era tão amargo que me entontecia. É uma coisa que se sente na boca e não se explica.
Decidi encarar a realidade. E, para isso, menti. Disse ao Manel que já era conhecedor de tal facto, que para mim fora sempre uma dúvida, que não me admirava. Menti porque não quis que ele me visse cair. Não quis que ele percebesse que aquilo me abria um buraco. Não quis que ele levasse de mim a imagem de um rapaz que se desfaz por causa de uma coisa que pertence ao passado.
O que se passou pertence ao passado. É o que digo a mim mesmo. Sou dócil e sei compreender as coisas. Não vejo nisso um obstáculo para o futuro que idealizei construir. Com ela ou sem ela, não farei disso uma lembrança.
Com ela ou sem ela.
Escrevo esta frase e não sei o que ela quer dizer. Escrevi-a para me convencer. Não me convenceu. Passei a tarde com aquilo entalado, e à noite, quando me sentei a escrever, ainda estava com o sorriso amargo na boca. Não sei o que fazer com isto.
No entanto, naquele dia... mostrou-se experiente... e quando ela disse "Depois continuamos"... agora faz sentido.
Amanhã, se a vir, não sei o que lhe dizer. Se calhar não lhe digo nada. Se calhar já não digo nada a ninguém.
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