Tu…

Quinta-feira, 23 de Março de 1978

Hoje não aconteceu nada. O dia passou-se como os outros, sem nada que valha a pena registar. À noite, sentei-me a escrever e saiu-me isto:

Tu…

Escravo do teu corpo imundo,
condutor de uma alma parada.
Acende a luz que te dá vida,
tu que tens a vida perdida,
tens um corpo e não és nada.

Escravo do teu ser oco,
bola imunda que pula e não rola,
propósito inútil de que me sirvo.
Não és nada, és uma bola,
bola imunda que pula, mas não rola.

Escravo, escravo, escravo…
Levanta-te e diz basta.
Sê senhor do teu corpo, da tua alma.
Tem mão, diz sim e não.
Tens cabeça e tens razão.
Levanta-te e diz basta.
Chega de escravidão.

Escrevi isto de uma vez, sem pensar. Quando acabei, reli, e percebi que não é sobre uma pessoa qualquer. É sobre alguém que se deixou vencer, que perdeu a vontade, que se tornou numa coisa que não reage. E, ao mesmo tempo, é sobre mim, porque também eu ando a deixar-me levar, também eu ando a fazer o que os outros esperam, também eu sou uma bola que pula mas não rola.

Dedico isto ao Manel, que é o meu único e grande amigo. Não sei se ele vai entender. Se calhar não é para ele, é para os dois. Para ele, que precisa de se levantar, e para mim, que também preciso.

Hoje não a vi. Hoje não telefonei. Hoje escrevi um poema que não sei se é sobre quem o leia. Amanhã, se tiver coragem, mostro-o ao Manel.



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