A artista da sedução
Domingo, 26 de Março de 1978
Hoje é dia de Páscoa.Imagino a igreja na hora da missa com as famílias a acotovelarem-se por um lugar. A igreja cheia, as pessoas com roupa nova, as amêndoas a passar de mão em mão, os padres de vermelho, gordos, a falar do senhor que ressuscitou. Nas casas, fartura nas mesas e fome na rua. Havia beatismo e havia miséria. Imaginei tudo isto e senti uma coisa que não sei ou não quero dizer. Não é raiva. É mais fundo. É nojo.
Depois de um dia de tédio e de jantar, recolhi-me no quarto e sentei-me a escrever. Saiu-me isto:
Porque te escondes tu no meio da noite, acordada?
Porque és ave nocturna com medo do dia, da tua face?
Porque foges à realidade e não te vês a um espelho?
Vê! És mulher.
Vê o teu corpo morto que a todos deste
para satisfação do teu ódio.
Porque te encerras em ti mesma
e não acordas do pesadelo que te atormenta?
Porque dás o teu corpo, mulher. Porquê?
Não vês que és mulher?
Não tens a vida perdida.
Ainda agora começaste.
Podes parar, vive de dia!
Escrevi isto de uma vez e não é sobre uma pessoa. É sobre uma mulher que se perdeu, que se dá, que não se vê. E, ao mesmo tempo, é sobre todas as mulheres que eu conheci. É sobre a Lina, talvez.
Não gosto deste poema. Mas é o que tenho hoje. E hoje não me apetece ser justo.
Comentários
Enviar um comentário