A vida
Segunda-feira, 27 de Março de 1978
Hoje decidi passear. A razão foi que precisava mesmo de ir ao Porto, mas fiz disso um passeio, um daqueles que me esgotam. Andei horas. Subi e desci ruas, entrei em sítios, saí de sítios, vi montras sem ver nada, cruzei-me com pessoas que não conheço e que não me conhecem. Quando cheguei a casa, estava derreado.Costumo passear para me inspirar. Então viajo para além da barreira do real e transponho o irreal. Dou um tom por vezes dramático, escuro, não invejável. É uma coisa que me acontece, o mundo à volta desaparece e fico só com o que tenho dentro. Hoje foi assim. Andei pelo Porto e não vi o Porto. Vi o que trago comigo.
À noite, sentei-me a escrever:
A vida.
Palavra que resume a razão de viver e ser vivo.
Razão pela qual é necessária a morte de uns
para a sobrevivência de outros.
Método pelo qual se experimenta
uma sensação (des)agradável de ser vivo.
Experiência que acaba quando se morre.
Forma repressiva da natureza.
Ciclo natural perfeito.
Escrevi como se estivesse a definir uma coisa que não me tocasse. É frio. É quase científico. E, no entanto, é o que sinto a vida como um ciclo que não pergunta, que não escolhe, que leva uns para que outros fiquem. Não sei se acredito nisto. Sei que hoje, ao escrevê-lo, me pareceu verdade.
Fico com a sensação de que escrevi uma coisa para não escrever outra. Falo da vida em geral para não falar da minha em particular. Falo da morte de uns para não falar do que perdi. Amanhã, se me apetecer, escrevo sobre o que realmente me importa. Hoje não me apeteceu.
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