Se um dia…

Terça-feira, 28 de Março de 1978

Hoje ouvi falar de uma revolução. Diz o povo que é preciso uma revolução. Ignorantes, não são capazes de ver que a revolução parte deles e não de quem está bem. É um problema que não me diz respeito só a mim, mas diz a todos. Fico com isto na cabeça e não sei o que fazer com ele.

À noite voltei a escrever:

Se um dia…

Se um dia conseguisse desejar e obter,
seria o homem mais feliz,
o mais egoísta, ciumento, feroz,
o pior marido do mundo.
Etc. Etc. …

Enfim, não quero desejar,
mas obter paciência, perfeição e um dom.

Já que sou uma sombra
que vai para onde o Sol não chega.
Uma sombra com sentimentos,
e que sente se a pisam,
que vê fundo nos corações
e que por vezes se engana.

Nada é perfeito.

Depois de escrever, reli e percebi que é sobre mim. Sou uma sombra que vai para onde o Sol não chega, é o que sinto, e é o que escrevi. Uma sombra com sentimentos, que sente quando a pisam, que vê fundo nos corações, e que por vezes se engana. E a última linha diz o resto, nada é perfeito.

Não sei o que quero desejar. Sei que não quero o que os outros querem — não quero ser o pior marido do mundo, não quero ser o egoísta, o ciumento, o feroz. Quero paciência, perfeição e ter um dom. Mas a perfeição não existe, e o dom não se pede. Fico com isto e não chego a lado nenhum.

Hoje não a vi. Hoje não telefonei. Hoje escrevi um poema sobre ser sombra. Amanhã, se o Sol aparecer, talvez saia de onde estou.




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