Uma cópia também é um original

Quarta-feira, 29 de Março de 1978

Hoje não aconteceu nada. Passei o dia por casa, sem fazer nada de especial. À noite, sentei-me a escrever, e saiu-me uma reflexão sobre a perfeição.

Digo eu que a perfeição é um dom que não é compatível com todos. E com razão. Senão vejamos, um pintor com a perfeição de escultor modelaria as telas de tal maneira que o alto e baixo-relevo só seria possível com a sobreposição de telas. Isto, sem comparar com um alfaiate, que faz o que faz com as mãos, e não com os olhos.

Claro que todos nós somos perfeitos em mais ou menos aptidões. Há sempre uma coisa em que somos bons, uma coisa que fazemos como ninguém. E, no entanto, há que notar uma coisa, cada um de nós é um profissional naquilo que faz. O fruto desse trabalho é um original. Bem ou mal, não deixa de ser um original. E qualquer um conseguiria fazer uma cópia, que, por sua vez, era um original seu.

Fico com esta ideia e não sei o que fazer com ela. É uma daquelas coisas que se escrevem e que ficam a pairar. Talvez seja sobre o que eu faço, estes diários, estas páginas, estas palavras. Talvez sejam cópias de coisas que outros pensaram, ou que eu próprio escrevi antes. Talvez sejam originais, e eu ainda não saiba. Não sei. 

Hoje isto chega. Amanhã vejo se tem sentido.




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