A cobra no grupo coral
← Página Anterior | Índice | Página Seguinte →
Sábado, 5 de Novembro de 1977
Hoje tive uma cobra, pequena, que apanhei na rua ferida e coloquei num bolso.
Na minha inocência levei-a para a biblioteca do grupo coral. Na verdade esqueci-me que a tinha no bolso. Estava eu sentado distraído na leitura de um livro, quando de repente levantou-se um enorme reboliço na sala. No início não me apercebi da razão dos gritos histéricos de uns e da pantomina de outros. Alguns dos membros do coral saíram pela janela. Quando me apercebi da razão de tal alvoroço peguei na cobra e voltei a metê-la no bolso. O seu aspecto arrepiante, esguio e viscoso fez fugir muita gente. Era pequena, mas bastava aparecer para provocar medo e fazer com que todos fugissem para fora da sala.
Se a cobra pudesse pensar, talvez se sentisse vaidosa com a sua estatura, tão diferente da nossa, por conseguir assustar-nos dessa maneira. É curioso como uma coisa tão pequena pode provocar uma reacção tão grande.
No fim, as meninas do coro acabaram por vir ter comigo curiosas e sem qualquer receio.
Fiquei a pensar nisso. Muitas vezes, aquilo que vemos numa pessoa, numa coisa ou numa situação não corresponde àquilo que realmente representa. O aspecto pode impressionar, assustar ou até provocar repulsa, mas isso não significa que seja essa a sua verdadeira importância.
Eu vejo em tudo uma lição a aprender. O seu aspecto não é aquilo que representa, mas algo que se utiliza para se fazer compreender e ser compreendido.
Talvez seja isso que tantas vezes nos falte, olhar um pouco para além daquilo que vemos à primeira vista.
Comentários
Enviar um comentário