Aqueles olhos verdes...

 

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Sexta-feira, 4 de Novembro de 1977

Como há já alguns dias me encontro com a Lina no seu trabalho, sempre que saio do trólei, sei que uns olhos verdes me acompanham até desaparecer. São os olhos da Dila. Isso nunca me afectou da maneira que talvez ela pudesse pensar, e a Lina sabe-o. Sabe que pode confiar em mim e aquilo que aconteceu hoje veio provar o que lhe disse.

De tarde, quando me dirigia a pé para a Academia, pois estava no Porto, encontrei-me com a menina Rita. Ficou espantada por me ver e conversámos sobre ambos. Quando nos íamos despedir, lobriguei um esboço para um beijo. Noutra ocasião não perderia esse momento, no entanto, sou fiel aos meus princípios.

Cheguei a casa e contei o sucedido à minha irmã. Ela riu-se, porque quando me encontrei com ela há duas semanas, creio, nessa mesma noite ela sonhou comigo e contou-o à minha irmã.

Um dos meus desejos era que a Lina lesse isto, no entanto, acredito que ela poria em causa estas minhas palavras, apesar do sentimento que nutro por ela.

Mas há outra coisa em que penso quando recordo aqueles olhos verdes que me acompanham à saída do trólei. É a Dila. E isso custa-me.

Eu já segui em frente. O meu pensamento está noutra pessoa, a minha vida tomou outro rumo e aquilo que sinto pela Lina é hoje uma realidade para mim. Mas não consigo olhar para a Dila e fingir que nada aconteceu. Sei que a magoei. Talvez mais do que alguma vez tenha querido admitir. E a última coisa que desejo é continuar a causar-lhe sofrimento.

Por vezes penso que gostava que ela também tivesse conseguido seguir em frente. Não porque queira afastá-la ou porque me seja indiferente aquilo que possa sentir, mas precisamente porque não quero vê-la presa a qualquer coisa que já não pode ser como antes. Gostava que encontrasse outra pessoa, outra razão para sorrir, qualquer coisa que lhe permitisse deixar para trás aquilo que aconteceu entre nós.

Talvez seja egoísmo meu pensar assim. Afinal, não posso decidir o que ela sente nem quanto tempo precisa para esquecer. Só sei que me dói perceber que os meus actos possam ainda magoá-la.

E aqueles olhos verdes continuam a acompanhar-me quando saio do trólei.

Talvez seja por isso que hoje tenha pensado tanto neles.


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