A explicação possível

Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 1978

O que se passou hoje em casa já não é novidade. Já assisti a outras discussões, já ouvi outras vezes o mesmo tom de voz, já me habituei a que isto aconteça de vez em quando. Mas esta foi a mais dura de sempre.

Não sei bem como começou. Uma incompreensão de um lado, uma impaciência do outro. Depois vieram os gritos. Depois veio o resto, que é sempre o que fica. Fiquei no meio, como sempre fico. Não grito, não tomo partido, não digo nada. Fico calado, à espera que passe. E passou. Voltou tudo ao normal, como se nada tivesse acontecido.

Apetecia-me morrer. Não é uma frase apenas. Naquele momento apetecia-me mesmo morrer, e estava disposto a tudo. Mas depois acalmei. A calma vem sempre, mais tarde ou mais cedo. Não sei se é bom ou mau. É o que é.

Fiquei a pensar naquela teoria que os pais da Lina têm sobre mim, se o pai mata, o filho é criminoso. Ouvi isto e não esqueci. Não percebo como é que alguém pode acreditar numa coisa destas. Não percebo, e não lhes posso mostrar o erro. É isso que me custa mais. Não é a injustiça em si, é não poder responder. Ficam eles com a razão que não têm, e eu fico com a razão que não posso dizer.

Ao fim do dia, chego à conclusão de que não há explicação. Não há explicação para o que se passa em casa, não há explicação para o que se passa com a Lina, não há explicação para o que se passa comigo. Talvez seja esta a explicação possível, que não há nenhuma. E é preciso continuar na mesma.


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