…tenho uma necessidade louca de me substituir
Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 1978
Hoje não fiz nada. Não fui a lado nenhum, não vi ninguém. O dia passou-se e eu com ele, sem dar por isso.Continuo a sonhar de olhos abertos. É uma coisa que me acontece desde que me lembro, mas agora é pior. Tenho uma necessidade louca de me substituir. Não quero ser o mesmo. Não quero continuar a ser este que anda por aí, que vai ao Porto, que vai ao café, que faz o que se espera que faça, e que por dentro não é nada.
Para a maior parte das pessoas a vida não passa de um passatempo. Andam, comem, dormem, trabalham, conversam, e no fim do dia estão satisfeitas. Eu não consigo. Talvez não seja humano. Talvez só se seja humano na medida em que se tem uma forma humana, e o resto seja ilusão. Quem é dominado por uma paixão única dá o mesmo espectáculo, seja quem for. Eu dou o espectáculo. Não me orgulho disso.
O que se passa comigo é simples, não sou um homem que não possa amar. Sou um homem que ama, e que por amar não sabe estar no mundo. Qual é o sentido desta palavra que agitamos em frente do espírito como se fosse um copo de dados, o amor? Pois é o amor. Sempre o amor. E no fim, coitado de mim, que não sou nada.
Estive a pensar nisto toda a noite. Não cheguei a conclusão nenhuma. Acho que nunca vou chegar.
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