…uma tarde na vã tentativa de esquecer

Terça-feira, 7 de Fevereiro de 1978

Hoje é Carnaval. Não me apetecia ficar em casa, a olhar para as paredes, e por isso fui para o Porto com a minha irmã.

Quando chegámos à paragem, vi a Lina na varanda de casa. Estava longe. Não fiz nada, não disse nada. Fiquei só a olhar. Depois segui caminho.

Fomos a um café. Depois estivemos no Shopping Center Brasília, num pub, mais de uma hora. Nunca tinha estado num sítio assim. É um ambiente onde se paga a dobrar, mas o prazer também é outro. Senti-me um príncipe, com a desconfiança de quem nunca foi príncipe.

Foi uma tarde para esquecer. Não esqueci.

Tentei dar vida a uma coisa que já estava morta. Tentei fazer luz onde já só havia uma imagem iludida. Não consegui. Passei a tarde a fazer o que se faz quando não se quer pensar, andar, sentar, olhar, beber. E a Lina esteve sempre comigo, mesmo sem estar.

O pior não foi vê-la na varanda. O pior foi perceber que, mesmo longe, mesmo sem me ver, ela continuava a mandar em mim. Fui ao Porto para não pensar nela e passei o dia a pensar nela. Não sei o que isto quer dizer, mas não me parece bom. Se calhar é só o costume. Se calhar é outra coisa, e eu ainda não tenho nome para lhe dar. 

Amanhã logo se vê.


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