Dardo, lança
Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 1978
Hoje não me habituei. Ainda não me habituei a estar só, e acho que não me vou habituar tão cedo. Enquanto não tiver de novo companhia, não volto a ser o mesmo. É o que sinto, e não é queixa.Passei o dia por casa. Não fiz nada de especial. À noite, peguei na caneta e saiu-me isto:
Serei dardo, serei lança,
serei uma arma eficaz.
Voo longe, fico perto,
vou para onde me apraz.
O lançador é o tempo,
o alvo um coração.
Quem sou eu senão cupido,
cada seta uma paixão.
Serei leve como o vento,
serei forte como um trovão.
Darei a vida ao bem
e a morte à solidão.
Não darei tréguas a quem combate o amor.
Para uns serei felicidade,
para outros serei terror.
Viva em paz quem me quer bem,
viva a vida quem tem amor.
Serei um mito, serei esperança,
serei um símbolo, uma lembrança.
Terei vontade de vingança,
mas não posso, porque tenho amor.
Não sei se isto é bom. Não sei se é poema. Sei que saiu assim, e que enquanto escrevia não pensei em mais nada. Foi a primeira vez, desde que tudo acabou, que estive bem durante um bocado.
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