O adeus que não senti

Sábado, 11 de Fevereiro de 1978

Vai fazer uma semana que não falo com a Lina. Uma semana inteira, sete dias, e eu continuo sem me convencer de que ela me deixou. Não me entra na cabeça. Sei que aconteceu, estive lá, disse-lhe o que tinha a dizer e ouvi o que ela tinha para me dizer. Mas não me entra.

Vou vivendo agarrado às recordações. É o que tenho. Passo o dia a lembrar-me de coisas que já não voltam, e à noite, quando me deito, elas voltam todas ao mesmo tempo, e depois vão-se embora, e eu fico só.

Recordações, sonhos que passam e que voltam. Sonhos que não são mais do que recordações. É o que me resta. A despedida foi triste, mas não foi sentida, pelo menos não parecia. Um adeus, um sorriso, e depois nada. Vivo agora do que ficou, e o que ficou é pouco.

Escrevi isto à noite, e não sei bem para quem:

Pega-me na mão,
faz-me sentir que não sou fantasma.
Pega-me na mão para saber que existes,
que és tu.
Deixa-me sentir de novo os teus lábios,
a tua boca,
o teu amor.
Deixa-me sentir que me amas.
Dá-me o prazer de te ver, de te abraçar.
Dá-me o prazer de fazer amor contigo,
de desfrutar sonhos carnais.
Faz-me sentir ciúmes,
para que te adore,
e me odeies.

Não sei se hei-de mostrar isto a alguém. Provavelmente não. Escrevi-o porque tinha de ser escrito. Amanhã é domingo e a minha irmã Fernanda quer levar-me a algum lado. Vou, para não ficar em casa. Mas não me apetece nada.


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