A ilusão do triunfo

Terça-feira, 30 de Maio de 1978

Hoje escrevi sobre uma vitória que, à medida que avançava, deixou de parecer tão segura. Primeiro havia um inimigo vencido e um caminho aberto. Depois apareceram o frio, a solidão e o medo.

Talvez por isso o poema termine de uma forma tão diferente daquela com que começa.

A ilusão do triunfo

Conquistado o trono e destruído o inimigo
Não há nada a temer
Haverá ainda alguns obstáculos
Que mesmo uma pileca ultrapassará
Depois será visível o caminho em toda a sua extensão
Leonardo não deixaria de usar o “sfumato”
Para pintar assim um quadro magnificente
Uma sensação de frio, de solidão,
Arrepiariam qualquer humano
Para vencer o medo aspergido
Por aquela natureza morta.
O eco dos passos, o burburinho das fontes
São tudo o que de vivo mexe
Tiro o colete que me sufoca
E verifico horrorizado, que desaparece
Fecho os olhos e sinto-me embalado
Porém ao abri-los
Vejo o meu corpo inerte na estrada
Junto a muitos



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