A linguagem que não precisa de palavras
Sexta-feira, 27 de Janeiro de 1978
Hoje estive com a Lina à uma hora e depois, novamente, às seis e meia. Quando a encontrei, percebi que estava contente com os versos que lhe tinha dado.
Isso deixou-me particularmente feliz.
Afinal, aquelas palavras que nasceram da impossibilidade de lhe falar tinham chegado até ela. O que ontem começou como uma tentativa de preencher um silêncio transformou-se hoje numa coisa que já pertencia aos dois. Não precisava de saber exactamente o que ela tinha sentido ao lê-los. Bastava-me perceber que os recebera bem.
Depois ficámos ali, na paragem, um junto ao outro.
Não precisávamos de dizer muito. Contemplámo-nos e trocámos palavras ternas, num tom sentido que só nós, apaixonados, conhecíamos. Havia coisas que dizíamos, mas havia outras que pareciam passar apenas pelo olhar.
Talvez seja essa a continuação natural dos versos de ontem. A poesia tinha procurado palavras para aquilo que eu não conseguira dizer. Agora, diante dela, descubro que nem sempre são necessárias.
Os meus olhos encontraram os seus olhos num enlace profundo. Duas faces aproximaram-se, dois corações pareciam acompanhar o mesmo ritmo. Por momentos, tudo o que existia à nossa volta perdeu importância.
A vida, contudo, não deixa de ser um jogo estranho. Não há sorte garantida, nem cartas marcadas. Às vezes tudo parece escuro até que uma nova carta seja virada. O Sol poente desaparece no fim do mar para depois voltar a nascer, ainda com uma luz trémula, retomando o seu lugar no céu.
E nós ficámos ali, nesse intervalo entre o que acaba e o que começa.
Olhos semicerrados.
Lábios que procuravam o calor de outros lábios.
E depois o beijo.
Talvez seja esta a verdadeira linguagem de que hoje escrevo. A que começa nas palavras, passa pelos olhos e acaba onde já não é preciso dizer mais nada.
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