Exame de consciência
Sábado, 28 de Janeiro de 1978
Hoje, como já acontecia há algum tempo aos sábados, não estive com a Lina. A ausência dela custa-me, mas tento conservar dentro de mim a imagem daquela por quem morro de amores. A Lina.
Quando não a vejo, a imaginação ocupa o espaço que ela deixou vazio. E hoje, num verdadeiro exame de consciência, vejo-me como um náufrago numa ilha isolada do mundo, habitada por criaturas que me assustam mais do que qualquer animal, a solidão, o ócio e a morte.
Por várias vezes estive quase a entregar-me ao destino dessas feras. Há momentos em que a vida parece perder o sentido e em que me pergunto para quê continuar a lutar. Mas alguma coisa me detém.
O amor.
Não apenas o que sinto pela Lina, mas também o amor pela própria vida, essa força que despreza barreiras e parece não aceitar limites. Foi essa força que me salvou daquela ilha imaginária.
Mas agora percebo que talvez tenha simplesmente passado de uma luta para outra.
Porque há outra coisa que começa a ganhar espaço dentro de mim, o ódio.
É como uma bala que penetra fundo no corpo. Não se vê por fora, mas fica lá dentro, a ferir. E a vida transforma-se então numa luta constante, em que a única maneira de lutar é continuar a andar.
Parar é morrer.
Talvez seja por isso que a imagem da Lina continua comigo mesmo quando ela não está. Ontem foram os nossos olhos, as nossas palavras e o beijo. Hoje é apenas a lembrança. Mas é uma lembrança que me impede de me deixar cair.
E percebo que aquilo que ontem encontrou nos versos uma forma de se dizer, hoje encontra dentro de mim uma outra linguagem, a luta entre aquilo que me prende à vida e aquilo que ameaça arrastar-me para longe dela.
Por enquanto, continuo a andar.
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