Entre o sonho e a realidade
Domingo, 29 de Janeiro de 1978
Hoje não estive com a Lina, mas ela continuou presente nos meus pensamentos. Depois do que aconteceu ontem e, sobretudo, depois do que aconteceu na sexta-feira, dou por mim a regressar vezes sem conta àqueles momentos.
Há qualquer coisa de estranho quando uma pessoa começa a ocupar tanto espaço dentro de nós. Mesmo quando não está presente, continua a acompanhar-nos. Basta uma lembrança, uma palavra ou simplesmente o silêncio para que volte a aparecer.
Penso nos versos que lhe escrevi e na maneira como ela os recebeu. Talvez seja por isso que hoje sinto vontade de escrever novamente. A poesia começou por ser uma forma de dizer aquilo que não conseguia dizer-lhe directamente. Agora parece ter-se tornado uma espécie de lugar onde posso continuar a encontrá-la.
Mas também percebo que existe uma diferença entre aquilo que escrevo e aquilo que vivo.
Nos versos tudo pode ser perfeito. Posso transformar um olhar num universo, um beijo num instante eterno, uma ausência numa espera cheia de significado. Na realidade, porém, existem os dias em que não a vejo, os obstáculos, as dúvidas e as pequenas coisas que nos obrigam a regressar à terra.
Talvez seja precisamente por isso que continuo a escrever.
Porque entre o sonho e a realidade existe um espaço que ainda não sei preencher.
E nesse espaço está a Lina.
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