Uma vida de falsidades
Segunda-feira, 30 de Janeiro de 1978
Voltei a estar com a Lina. Quando a vi, senti imediatamente alguma apreensão. Não sabia como iria comportar-se, nem o que poderia encontrar naquele encontro. Depois de tudo o que tenho pensado nestes últimos dias, já não consigo simplesmente estar com ela sem procurar sinais, sem tentar perceber aquilo que não é dito.
Foi talvez por isso que tomei uma decisão, fazer-lhe uma provação, mas também fazer uma provação a mim próprio.
Quero saber onde estou.
Há qualquer coisa dentro de mim que começa a incomodar-me profundamente. Sinto que vivemos uma vida de falsidades. Não necessariamente porque mintamos um ao outro, mas porque tantas vezes escondemos aquilo que sentimos, calamos o que queremos dizer e deixamos que as circunstâncias decidam por nós.
E eu não quero continuar assim.
Quero gritar-lhe que a amo, que a adoro. Quero que o mundo inteiro ouça aquilo que sinto. Não quero ser apenas mais uma voz perdida nas trevas de uma vida em que cada pessoa representa um papel e ninguém sabe já onde termina a representação e começa a verdade.
Quero olhar-me ao espelho e reconhecer-me.
Quero saber que sou eu mesmo.
Quero viver uma vida que não esteja parada, uma vida que tenha movimento, mesmo que esse movimento me leve por caminhos que não conheço. Quero viver e, ao mesmo tempo, perder-me para me encontrar.
Mas estas ideias levam-me também a um lugar mais escuro.
Não quero fugir à vida. E não posso fugir à morte.
Nasci para morrer. Então, porque nasci? Para quê?
As perguntas surgem umas atrás das outras e não encontro respostas que me satisfaçam. Falsidade, falsos — é assim que começo a ver tudo aquilo que me rodeia. Mas o que posso fazer para fugir a isso?
Morrer?
Ou tornar-me também falso?
Talvez o mais inquietante seja perceber que, ao procurar a verdade, começo a desconfiar de mim próprio. Quero ser absolutamente verdadeiro com a Lina, mas também quero descobrir se aquilo que sinto é tão sólido como acredito.
É essa a provação que hoje decidi fazer.
Não sei ainda onde ela me levará.
Mas sei que já não consigo continuar a viver apenas de aparências.
Comentários
Enviar um comentário