O céu parece querer desmoronar-se
Terça-feira, 31 de Janeiro de 1978
Hoje apresentei a minha proposta à Lina, mas ela depressa a desmontou com os prós e os contras que apresentou. Eu tinha pensado naquilo como uma possibilidade, talvez até como uma maneira de encontrar uma saída para as dúvidas que me atormentam, mas a realidade revelou-se mais complicada do que aquilo que eu imaginara.
Fiquei a pensar no que ela me disse.
Segundo as minhas ideias, espero que aquilo que temo não se revele verdadeiro. Mas existe dentro de mim uma contradição que já não consigo esconder, quero e não quero que aconteça.
Quero saber a verdade.
E, ao mesmo tempo, tenho medo dela.
O amor da Lina está a fraquejar, é esta a suspeita que hoje me atravessa. Uma parte de mim deseja que não seja verdade, porque ainda acredita naquilo que vivemos. Outra parte parece preparar-se para a possibilidade de tudo terminar, talvez por pensar que assim a queda será menos dolorosa.
Mas como preparar-me para perder aquilo que ainda quero conservar?
Olho-me ao espelho e a imagem que encontro parece-me estranha. Vejo um ser humano que, por vezes, reage como um autómato, levado pelas próprias ideias, pelas suas certezas e pelas suas contradições. Outras vezes, parece-me que não vejo nada definido, como se pudesse ser tudo e nada ao mesmo tempo.
É nestes momentos que o meu pensamento se torna exagerado. Sinto-me superior à sociedade que me rodeia, como se estivesse acima das suas regras, das suas convenções e daquilo que considero a sua falsidade. Mas, por detrás dessa arrogância, reconheço uma coisa muito menos grandiosa, medo.
Medo de perder.
Medo de descobrir que aquilo em que acredito não corresponde à realidade.
Medo de olhar para a Lina e perceber que já não sente por mim aquilo que eu ainda sinto por ela.
Talvez seja por isso que hoje o céu me parece tão baixo, tão pesado, como se estivesse prestes a desmoronar-se sobre mim.
E continuo sem saber o que é pior, descobrir que os meus receios são verdadeiros ou continuar a viver sem saber.
Por agora, só consigo esperar.
E esperar, quando se ama, pode ser uma forma bastante dolorosa de viver.
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