Palavras que ainda não chegaram
Quinta-feira, 26 de Janeiro de 1978
Voltei a estar de novo com a Lina e, felizmente, continuava a não haver tristes notícias. Depois dos últimos dias, esta tranquilidade era importante para mim. Bastava estar com ela e perceber que estava bem para que algumas das minhas inquietações perdessem força.
Hoje confirmei também a ideia de que a minha professora de Físico-químicas tinha um "fraquinho" por mim e que eu queria aproveitar isso em benefício próprio.
Quem me ler poderá julgar que sou um monstro, mas julgará mal. Se amo uma rapariga, é a Lina, e não tem cabimento outra qualquer. Esse benefício próprio a que me refiro é apenas em relação às aulas. Não sinto nada por essa professora e não há, portanto, qualquer confusão no que diz respeito àquilo que realmente quero.
Quando estive com a Lina, entreguei-lhe os versos que tinha escrito.
Ela não os leu logo.
Talvez tivesse receio de encontrar alguma coisa que a fizesse corar. Talvez simplesmente quisesse guardá-los para outro momento. Fiquei sem saber. Mas o simples facto de os ter levado comigo e lhos ter entregue fez-me sentir que aquelas palavras, que tinham começado por ser apenas minhas, passavam agora para as mãos dela.
E talvez seja isso que me prende tanto à escrita.
Ontem tinha escrito porque não conseguira falar com ela. Hoje entreguei-lhe aquilo que escrevera. A poesia deixou de ser apenas uma maneira de aliviar o que sinto e passou a ser também uma forma de comunicar com ela, mesmo quando não encontro as palavras certas para lhe dizer directamente.
Mas agora penso que aqueles versos talvez não sejam os melhores.
Se algumas palavras me parecem insuficientes depois de as ter escrito, talvez possa procurar outras. Não para apagar o que já disse, mas para tentar aproximar-me melhor daquilo que quero transmitir.
Por isso, ao chegar a casa, ficou-me uma vontade muito simples, escrever mais alguns versos.
Talvez os próximos consigam dizer aquilo que estes ainda não disseram.
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