Dou-te o meu coração
Quarta-feira, 25 de Janeiro de 1978
Hoje só pude ver a Lina. Melhor dizendo, tive apenas a oportunidade de a ver, sem lhe poder falar, porque ia de trólei. À noite também não consegui estar com ela.
Fiquei com aquela sensação estranha de quem esteve muito perto de alguém e, ao mesmo tempo, não conseguiu chegar até essa pessoa. Bastou vê-la para sentir vontade de lhe falar, mas o momento passou depressa demais. O trólei continuou o seu caminho e eu fiquei com aquilo que não tinha conseguido dizer.
Talvez tenha sido precisamente essa falta de palavras que me levou a escrever.
Quando não consigo falar com a Lina, procuro outra maneira de chegar até ela. A prosa permite-me contar o que aconteceu, mas há coisas que, quando tento dizê-las simplesmente, parecem perder qualquer coisa pelo caminho. Então começo a procurar outras palavras, outros ritmos, outra forma de dizer.
E é assim que nasce o poema.
Não o escrevo porque tenha decidido ser poeta. Escrevo porque hoje não consegui falar com ela e precisava de lhe dizer aquilo que ficou por dizer. Os versos acabam por continuar a conversa que não tivemos.
Talvez seja esta a verdade mais simples de todas. Procuro palavras belas e não as encontro. Então deixo de procurar e ofereço-lhe aquilo que sei que é verdadeiro, o meu coração.
E continuo:
A amizade dela aparece-me aqui como uma coisa recebida, quase como um presente que só agora começo a compreender plenamente. Talvez seja por isso que até a ausência de hoje me pese tanto. Não é apenas não ter falado com ela. É sentir a falta de uma pessoa cuja presença já ganhou um lugar importante na minha vida.
Depois, os versos tornam-se mais inquietos:
Talvez a poesia me permita dizer isto sem ter de explicar tudo. Na prosa penso, conto, procuro compreender. No poema, simplesmente deixo sair aquilo que sinto.
Hoje vi a Lina e não lhe falei.
Ficaram-me as palavras por dizer.
E essas palavras, em vez de morrerem comigo, transformaram-se em versos.
Por isso, hoje, dou-lhe o meu coração.
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