Amor irresistível

Terça-feira, 24 de Janeiro de 1978

Hoje estive com a Lina durante algum tempo e falei-lhe nos versos que lhe tinha dedicado. Depois fiz outros.

Ontem tinha fechado o meu quarto diário em versos. Talvez por isso me tenha parecido natural começar este quinto diário da mesma maneira. É como se as palavras em prosa já não fossem suficientes para aquilo que quero dizer.

A poesia permite-me outra liberdade. Posso esconder-me atrás das palavras e, ao mesmo tempo, revelar-me mais do que conseguiria numa conversa. Escrevo para a Lina, mas também escrevo para mim. Talvez esteja a tentar perceber, através dos versos, a dimensão daquilo que sinto.

E o que sinto continua a parecer-me irresistível.

É irresistível o amor
Para viver sem amar
Minha vida é um terror
Em que me chego a odiar

É incansável o amor
Que tenho para te dar
Não penses que é favor
Pois tenho a vida para te adorar

Ser poeta gostava eu
Para um dia te poder rimar
Que o meu coração será teu
E o meu corpo dou-o ao mar

Talvez estes versos sejam ingénuos. Talvez daqui a algum tempo os leia de outra maneira. Mas hoje são verdadeiros.

Começo assim o quinto diário, com a Lina no centro dos meus pensamentos e com a poesia a tentar dar forma ao que ainda não sei explicar.

E talvez seja esse o sinal de que alguma coisa está a mudar. Não sei ainda o quê. Sei apenas que continuo a escrever.


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