A técnica do camaleão
Domingo, 19 de Fevereiro de 1978
O Manel passou a tarde toda cá em casa. Foi bom tê-lo aqui. Estivemos a conversar muito tempo, e é dessas conversas que me agradam e me fazem pensar depois. Hoje, em especial, li-o. Não sei explicar melhor. Vi-o.Por vezes estamos num confronto renhido, cada um a defender o que pensa. Outras vezes estamos cem por cento de acordo, e parece que somos a mesma pessoa a falar. Hoje passámos pelas duas coisas.
Há uma diferença entre nós que eu nunca lhe disse. Ele adapta-se ao ambiente, muda conforme as pessoas, conforme o que se espera dele. Não é falsidade, é maneira de estar. Eu não consigo fazer isso. Sou o mesmo em todo o lado, e às vezes isso custa-me. Não lho digo porque acho que ele sente. E se sente, não precisa que eu lhe diga.
Fico a pensar numa coisa que não sei bem como dizer. Sinto que, quando falo, as pessoas mudam de ideias. Não as assusto, não as obrigo. Mas levo-as a pensar como eu penso, ou a perceber que estavam enganadas. Não sei se isto é bom. Às vezes parece-me um poder. Outras vezes parece-me uma armadilha, e não sei de quem.
Nunca digo as mesmas frases duas vezes. Procuro sempre dizer de outra maneira. Não sei se é para não me repetir, ou para não ser apanhado. Talvez seja as duas coisas. Este sou eu.
Quando o Manel foi embora, fiquei na sala a olhar para o sítio onde ele esteve sentado. Não sei porquê. Estava lá, e agora não está. É uma coisa sem importância, e no entanto fiquei ali um bocado. Depois vim escrever isto.
Comentários
Enviar um comentário