A vida como herança

Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 1978

Voltei às aulas hoje. No regresso, tinha esperança de encontrar a Lina. Não a encontrei.

Com esperança, que faço eu? E com ela, que poderei fazer? Sem ela há morte, e com ela há que viver. É esta a contradição em que ando metido. Ter esperança e ter medo ao mesmo tempo é já uma causa perdida. Mas que fazer, se é a esperança que me dá a vida?

Falo em morte num dia de esperança. Não parece coisa de quem teve a vida como herança. Mas falo, porque é o que sinto, e não sei dizê-lo de outra maneira.

Há um pastor 
que vive no mato 
e não tem medo da morte. 
Tem esperança 
de continuar vivo, 
e só morre 
por uma paixão. 
Quando morrer, 
terá o caixão 
coroado de rosas. 
Homem vivo, 
homem morto 
nasceu para dar amor, 
e morreu do coração.

Talvez seja esse o meu destino. 
Não sei. 
Hoje não sei nada.


Comentários