Acabaram os encontros aos sábados

Quarta-feira, 18 de Janeiro de 1978

Hoje estive de novo com a Lina e senti uma alegria difícil de explicar.

É extraordinária a maneira como nos damos e como conseguimos partilhar os momentos bons e os maus, falar deles, suportá-los juntos. E, infelizmente, parece que os maus são ainda mais numerosos do que os bons.

Mas quando estava com ela, essa contabilidade deixava de ter importância. O que contava era a proximidade, a possibilidade de conversar e de sentir que, apesar de tudo o que nos rodeava, continuávamos a encontrar um espaço que era nosso.

Hoje, porém, a Lina pediu-me que não nos víssemos aos sábados.

O motivo era simples e, ao mesmo tempo, pesava. Sempre que nos encontrávamos ao sábado, a mãe dela acabava por saber e depois surgiam problemas em casa. Não havia muito que discutir. Se esses encontros provocavam dificuldades para ela, tinha de aceitar.

Assim seria.

A frase parece-me simples quando a escrevo, mas não é simples aquilo que contém. Estou habituado a procurar a Lina sempre que posso, a esperar pelos nossos encontros como quem espera por uma pequena abertura num dia demasiado fechado. Agora surge mais uma limitação.

Não significa que deixemos de nos ver. Significa apenas que uma das poucas possibilidades de estarmos juntos fica para trás.

E talvez seja isso que mais me incomoda, perceber que uma relação que nos faz bem aos dois tem de aprender a sobreviver às circunstâncias que existem à nossa volta.

Hoje saí deste encontro feliz por ter estado com ela, mas também com a consciência de que teríamos de mudar a maneira de nos encontrarmos.

Por enquanto, resta-me aceitar.

Assim seja.


Comentários