Começo a desesperar…

Sábado, 4 de Fevereiro de 1978

A Mónica fez hoje quatro anos às nove e meia da noite. Estive presente no festejo, como era de esperar, mas não me apetecia estar em festa nenhuma.

Não vi a Lina. Não pude estar com ela, nem falar com ela. E isto já começa a pesar de uma maneira que não sei explicar.

Se ela já tivesse rompido comigo, seria um choque. Não tenho razões para pensar que rompeu. Também não tenho razões para pensar o contrário. É esta a parte pior, o não saber.

Passei o dia com uma coisa presa no peito que não me larga. Não é dor de doença, nem é tristeza de quem perdeu alguém. É uma coisa que não tem nome e que se instala. Estou a começar a desesperar, e o desespero, ao contrário do que se pensa, é uma coisa absurda. Não serve para nada, não resolve nada, e no entanto toma conta de nós.

À noite, depois da festa, recolhi-me ao quarto e fiquei a olhar para o tecto antes de pegar na caneta. Pensei naquilo que o amor faz. Faz coisas lindas, dizem. Abençoado quem escreveu tais palavras. E também faz morrer, de amor também se morre, e não é só nas histórias.

Sinto-me como uma ave que não sabe o que a prende. Vejo grades, mas não as encontro. Serão imaginação minha? Se tenho de lutar, luto contra quem? Contra inimigos que não vejo, que não têm cara, que não têm nome. E contra esses, que armas é que se usam?

Fui egoísta. É o que penso agora, ao fim do dia. Fui egoísta e o mal caiu sobre mim. Talvez seja esse o castigo. Talvez não haja castigo nenhum e isto seja só a vida a acontecer. Mas à noite, quando estou só, custa-me acreditar que seja só isso.

Oxalá amanhã seja melhor. Mas já não digo isto com fé.


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