Será que ela já cortou comigo?

Domingo, 5 de Fevereiro de 1978

Hoje fui esperar a Lina à igreja, como faço aos domingos. Cheguei à hora do costume. Ela não veio.

Mandou dizer por uma colega que ficava para rezar. Foi o que a colega me disse, e eu percebi logo o que aquilo queria dizer. Ficar para rezar, àquela hora, era o mesmo que me mandar embora. E foi o que fiz.

Não me lembro de ter vindo para casa. Lembro-me de já estar em casa, e de estar furioso. A primeira coisa que me veio à cabeça foi pegar na mota. Não pensei para onde ia. Peguei na mota e fui.

Corri. Não sei quanto tempo, nem por onde. Só sei que a certa altura estive quase a cair, e que o susto me acalmou. Foi o susto que me acalmou, não a razão. A razão veio depois, quando já estava parado.

Pus a cabeça a funcionar. E cheguei à conclusão de que a Lina me está a enganar.

Podem ser conclusões precipitadas. Oxalá sejam. Mas tudo me leva a crer que não.

Fico doente com isto. Não consigo pensar noutra coisa. Ando com a cabeça cheia e não há maneira de a esvaziar.

Talvez na quinta-feira saiba a verdade. Até lá, é aguentar.


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