Estou preparado para o pior…

Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 1978

Hoje não estive com a Lina. Nem a vi.

Andei por casa, fiz o que tinha a fazer, mas o dia passou-se com aquilo sempre à frente. É estranho como a ausência de uma pessoa ocupa mais espaço do que a presença. Quando estamos juntos, o tempo passa depressa. Quando não estamos, cada hora fica parada e é preciso empurrá-la.

Não sei o que ela me vai dizer. Ontem ainda pensei que seria hoje, mas não foi. Ficou para a próxima vez, e a próxima vez é uma coisa que já não controlo.

Não estou muito longe da verdade se disser que a separação está próxima. É o que me diz a cabeça, e a cabeça, nestas coisas, costuma ter razão.

Aceitarei com resignação. Não me considero vencido — não é do meu tipo — mas também não tenho meios para combater. Uma pessoa pode não se dar por vencida e, ao mesmo tempo, não ter por onde pegar. É a situação em que estou.

O resto do dia foi como os outros. Nada de novo, nada que valha a pena guardar.

Já é tarde. Estou no quarto, com a caneta na mão, e não me apetece nada escrever. Escrevo porque é o que faço, e porque se não escrever fico a pensar, e pensar é pior.

Tenho medo do que aí vem. Não é um medo de homem, é um medo pequeno, desses que se instalam e não nos largam. Sei que vou sofrer e sei que vou sofrer sozinho, sem que ninguém dê por isso. Sempre foi assim. Nasci para isto, pelos vistos, para ter os problemas todos e ficar com eles, para levar com o que os outros não querem. E ainda assim não consigo desejar mal a ninguém.

Oxalá ela me diga que não é nada. Mas já não acredito muito nisso.


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