Como eu não há nenhum
Terça-feira, 7 de Março de 1978
Hoje vi a Lina. Assim como ontem.Mas hoje foi diferente. Hoje ela não olhou quando passei no trólei. Passou por mim e não olhou, e eu percebi logo o que aquilo queria dizer. Está aborrecida comigo por ainda não lhe ter telefonado. E tem razão. Não lhe telefono há dias, e ela sabe que eu disse que telefonava.
Espero fazê-lo amanhã. Tenho dito isto todos os dias e não tenho feito nada. Amanhã faço.
Fico a pensar nisto, e chego sempre à mesma conclusão. Mais cedo ou mais tarde, o nosso romance acaba definitivamente. Não é uma coisa que eu queira, mas é uma coisa em que acredito. Ela não vai aguentar muito tempo. E também estou a deixar crescer a barba, e sei que ela não gosta. Não é a única razão, mas é uma delas.
A mãe dela nunca vai aceitar que namoremos. Isso eu sei. E é de esperar que a Lina seja pescada por outro. Se acontecer, que não seja pior do que eu, nem melhor. Que seja como eu. Ainda não vi nenhum, mas hão-de aparecer. Melhores e piores.
Como eu não há nenhum.
Fico com esta frase na cabeça e não sei se é orgulho ou se é verdade. Provavelmente é as duas coisas. Sempre foi assim.
Estou deitado, com a luz apagada, e ainda estou com a imagem dela a passar por mim sem olhar. Foi só isso, não olhou. E eu passei o dia a pensar no que isso quer dizer. Se calhar não quer dizer nada. Se calhar ela estava distraída. Mas eu sei que não. Sei que é o telefone. Amanhã telefono, e se ela não atender, também não faz mal. Já estou à espera do pior, como sempre. E, apesar disso, escrevi "como eu não há nenhum" e acredito nisto. Não sei o que isto diz de mim. Diz que sou vaidoso, talvez. Ou diz que ainda não aprendi a ser pequeno.
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