Mal a vi, virei os olhos para o lado
Quarta-feira, 8 de Março de 1978
Hoje voltei a ver a Lina. Mas estava tão aborrecido que mal a vi, virei os olhos.Foi um gesto estúpido. Não sei porque o fiz. Vi-a de longe, e em vez de a cumprimentar, em vez de me aproximar, virei a cara para o lado, como se não a tivesse visto. Logo a seguir fiquei aborrecido comigo mesmo. Ela viu-me. Eu sei que ela viu-me, porque quando olhei de novo, ainda estava a olhar para mim. E eu tinha virado os olhos.
Passei o dia com aquilo entalado. À noite decidi telefonar, para aplacar o erro. Foi a mãe que atendeu.
Não disse quem falava. Disse que era um colega do Porto. Disse-o sem pensar, e assim que o disse percebi que tinha dito uma coisa que não fazia sentido. Mas já estava dito. Perguntei pela Lina e a mãe disse que não estava. Pedi que lhe dissesse que um colega do Porto tinha telefonado, e desliguei.
Fiquei com o auscultador na mão depois de desligar, a perceber o que tinha feito. Não telefonei para falar com ela. Telefonei para que ela soubesse que eu telefonei. É diferente. É pior.
Eis porque penso que isto não vai durar. Sinto ciúmes. É uma coisa que me consome. Cada vez que me lembro daquela aliança que ela usa, aquela que não é minha, fico estarrecido. Não consigo explicar. Sei que não é nada, sei que é uma aliança qualquer, mas não consigo tirá-la da cabeça.
Os telefonemas não vão resolver isto. Não vejo é outro meio. É o que tenho.
A casa está silenciosa, e eu estou sentado na cama, com a caneta na mão, a pensar na aliança. Não sei o que ela significa. Talvez nada. Talvez seja só uma aliança. Mas eu vi-a, e não consigo deixar de a ver. Há coisas que entram pelos olhos e não saem. Esta foi uma delas. Amanhã telefono outra vez. Ou não.
Comentários
Enviar um comentário