Vou espiá-la
Quinta-feira, 9 de Março de 1978
Hoje constou-me que a Lina se encontra todos os dias com um rapaz.Soube por um colega. Não me disse com má intenção, disse-o como se estivesse a dar-me uma notícia sem importância, do género das que se dão sem pensar. Fiquei a olhar para ele e não disse nada. Depois disse que já sabia. Não sabia. Mas disse que sabia, porque não queria que ele percebesse que aquilo me caía em cima.
Não é surpresa. Mais cedo ou mais tarde, esperava isto dela. Sempre esperei. Desde o dia em que lhe vi a aliança, que não é minha, que ando à espera disto. Tenho uma certa visão para as coisas que vão suceder. Já previ isto, e não me enganei.
Mas não quero acreditar. Prefiro ser testemunha da verdade, com os meus próprios olhos, em vez de acreditar no que me dizem. Um dia destes vou esperá-la. Claro que ela não me verá. Vou ficar de longe, a ver com quem está, o que faz, para onde vai. Se não for verdade, ficarei chocado e envergonhado por ter pensado mal dela. Se for verdade, telefono-lhe uma vez mais, conto-lhe o que sei, e acabo com tudo de uma vez. E agradeço que nunca mais nos vejamos.
Não sei se vou ter coragem de fazer isto. Sei que pensei nisto o dia todo. Sei que, à noite, quando me deitei, ainda estava a pensar nisto. E é isso que me assusta mais do que a notícia, não é o que ela faz. É o que eu estou disposto a fazer para saber.
Fico com esta ideia e não gosto dela. Mas fico com ela na mesma.
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