Prostitutas por todos os lados
Sexta-feira, 10 de Março de 1978
Hoje houve greve geral na função pública. Por causa disso não tive aulas, e decidi dar um passeio pelo Porto.Andei por sítios que não costumo. Ao princípio ia só a andar, sem destino, a ver as montras, a ver as pessoas. Depois meti-me por uma rua e fiquei horrorizado.
Prostitutas por todos os lados. Numa rua vizinha estava um polícia, e não fazia nada. Não percebo como aquilo é permitido. Fiquei escandalizado.
Não consigo perceber porque é que elas se metem nisto. Verão naquilo uma forma de se sentirem satisfeitas? Um confronto consigo mesmas? Não sei. Não consigo entrar na cabeça delas.
Não direi que todas fazem desta vida uma fonte de rendimentos. Talvez a maior parte, mas não todas. Uma que seja, uma única, há-de ter uma razão. Foi isso que mais me chocou, não a rua, não a quantidade, mas a ideia de que uma delas, uma só, está ali por uma razão que eu não consigo alcançar.
Fiquei com aquilo na cabeça o resto do dia. Não é uma coisa que se explique. Vi uma rua e passei por ela, e agora não consigo tirá-la da cabeça.
Voltei para casa ao fim da tarde. Não disse nada a ninguém. À noite, sentei-me a escrever e ainda estava com aquela rua na cabeça.
Há coisas que não se percebem, e não é por falta de inteligência. É por falta de vida. Eu não sei o que é preciso para uma mulher estar ali. Não sei, e talvez nunca saiba. E é isso, mais do que a rua, que me deixa sem palavras.
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