Uma corrida sem meta
Segunda-feira, 6 de Março de 1978
Para que se lembrem de mim, quando morrer, haverá uma placa acima da minha cabeça, com um metro, e dirá:"Aqui jaz quem nasceu, viveu e morreu. Quem nasceu para viver e viveu para morrer. Um homem, pretexto que a natureza usa para dizer evolução."
É o que basta. Não há mais nada para dizer de um homem.
A vida certa, dizem, é não ouvir, não ver e não falar. Ter uma vida de morto vivo. Se não houvesse morte, seríamos uma formiga num formigueiro — todos iguais, todos a fazer o mesmo, todos sem saber porquê. Só devia viver quem não quer, e a humanidade seria outra.
A vida é um puzzle que ainda não tem solução. É uma corrida sem meta. É uma incógnita invariável, um código da natureza, um passaporte para a morte.
A casa está calada e eu estou aqui, na cama, com a luz da mesinha de cabeceira acesa e a caneta na mão, a escrever na penumbra. Ando às voltas com a morte desde ontem, e não chego a lado nenhum. A verdade é que não penso nisto por gosto. Penso porque, no fundo, ainda estou a pensar nela. Tudo o que escrevo sobre o fim é sobre o que ficou sem fim. A Lina está em tudo o que eu digo, mesmo quando não a refiro. É por isso que não consigo escrever nada de jeito sobre a vida, a minha vida, agora, é uma coisa em falta.
O que escrevo deixa-me com a sensação de que estou a dizer coisas que já foram ditas por outros, melhor do que eu. Mas são as minhas, e por hoje chegam.
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