O dia que ficará na memória do Manel

Domingo, 5 de Março de 1978

Este foi um dia que ficará na memória de alguém. Esse alguém é o Manel.

De manhã, o Manel veio ter comigo e disse-me que saíra de casa. Achei pândego no princípio, pensei que fosse uma daquelas coisas que ele diz e que passam. Mas depois vi que ele falava verdade. Estava com a cara de quem não dormiu, e com a voz de quem já não tem para onde ir. Só pelo facto de saber isto, revoltei-me.

Depois soube a causa e fiquei explosivo. É a religião. Nada mais, nada menos, que a religião. Ele negou a religião perante os pais, e os pais são cem por cento beatos. Isto foi ontem e não passou de uma discussão. Hoje, no entanto, iam eles — o pai, a mãe e os irmãos — a Espanha. Mas a tempestade de ontem não acalmou. Ele esteve em perigo de ser esfaqueado pelo pai.

Conclusão: foram para Espanha e deixaram-no sozinho sem ter de comer.

Estes apologistas de Deus…

Ficamos todo o dia em minha casa. Não sei o que lhe disse, nem sei se disse alguma coisa que servisse. Estive com ele, e isso foi o que pude fazer. Almoçamos, lanchamos e ao fim da tarde foi-se embora, não sei para onde, apesar dos meus esforços para que ficasse em minha casa. Disse que se arranjava.

Fiquei sozinho e sentei-me a pensar. Há coisas que não se percebem. Um pai que pega numa faca por causa de uma discussão de religião. Uma família que vai de viagem e deixa um filho sem comer. E depois chamam a isto amor, chamam a isto Deus. Não sei o que é Deus, mas se for isto, dispenso.

Agora estou no quarto, com a porta fechada, e ainda estou a ver a cara do Manel na cabeça. Ele não chorou, não se queixou, não disse mal dos pais. Só disse que saíra de casa, como quem diz uma coisa sem importância. E eu, que me queixo tanto da minha vida, percebi hoje que há coisas piores. Não sei o que vou fazer com isto. Sei que amanhã ele talvez apareça outra vez, e que eu vou estar aqui para ele. É isso que os amigos fazem. É o que tenho para lhe dar.


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