Entre a amizade e a dúvida
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Segunda-feira, 17 de Outubro de 1977
Na ida para o liceu, o Manel contou-me as pretensões de um rapaz para com a Lina.
Não acreditei no que me contou, pelo menos não quis acreditar. Mas a desconfiança já estava dentro de mim e bastou aquela conversa para ela crescer. Escusado será dizer que fiquei com a tarde estragada.
Saí mais cedo, vim embora e deitei-me. Queria afastar aqueles pensamentos, mas aconteceu exactamente o contrário. Tomaram-me o sono e, atrás deles, veio a angústia. Quanto mais tentava não pensar, mais imaginava coisas. E fui ficando preso àquilo até chegar ao ponto de decidir acabar tudo com ela.
Foram terríveis os minutos que vi passar até à hora de me encontrar com a Lina.
Tinha tudo decidido. Pelo menos era isso que eu pensava. Mas quando chegou o momento, quando finalmente a vi, tudo se tornou menos simples. O meu amor-próprio, mas sobretudo o que sinto por ela, impediram-me de fazer aquilo que tinha resolvido durante a tarde.
Quando me encontrei com ela, tornei-me calmo. A presença dela tinha esse efeito sobre mim, como se de repente as coisas que pareciam tão certas dentro da minha cabeça deixassem de o ser.
Nem por isso deixei de lhe falar no que o Manel me contara.
Ela ficou aborrecida e ainda mais quando me viu desolado. Tentou consolar-me, tentou desculpar-se, mas eu não admiti as suas desculpas. Depois tentou acarinhar-me. Havia nela uma vontade de me tranquilizar que eu via, mas a minha desconfiança não desaparecia assim tão facilmente.
Quando me pediu um beijo, acedi, mas sem grande convicção.
Eu sei que gosta de mim. No fundo, é nisso que continuo a acreditar. Mas há qualquer coisa em mim que precisa de mais. Ficaria mais seguro se ela o dissesse e, sobretudo, se tivesse aceitado a minha proposta de namoro.
Vim embora com a sensação de que nada estava verdadeiramente resolvido.
“Avizinham-se novos dias que cedo ou tarde trarão a resposta.”
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