Entre as aulas e a Lina
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Quarta-feira, 26 de Outubro de 1977
Creio que estou a começar mal as aulas.
Não é por não saber o que tenho de fazer, nem por não compreender que as aulas são importantes. O problema é outro e sei perfeitamente qual é, começo a faltar para poder estar a tempo e horas com a Lina.
É uma coisa que, enquanto acontece, parece simples. Há um encontro, há uma hora a que sei que ela vai chegar, e eu quero estar lá. Quero esperá-la, quero vê-la, quero ter aqueles momentos com ela. Depois lembro-me das aulas e sei que estou a faltar. E é aí que começa a outra parte do problema.
Vejo-me prejudicado por faltar.
Sei que estou a perder alguma coisa cada vez que não estou onde devia estar. As aulas não deixam de existir porque eu prefiro estar com a Lina e aquilo que agora me parece uma falta sem grande importância pode vir a pesar mais tarde. Tenho consciência disso, e talvez por isso comece a sentir algum peso na consciência.
Mas há o outro lado.
Sinto-me beneficiado pelos encontros.
Estar com a Lina compensa-me de outra maneira. Faz-me bem. Depois de tantas dúvidas, de tantos pensamentos e de tantas coisas que tenho guardado dentro de mim, estes encontros têm para mim um valor que não consigo comparar facilmente com o tempo que passo na Academia. Sei que não devia pensar assim, mas é o que sinto.
E talvez esta seja a minha dificuldade neste momento, sei o que devia fazer e, ao mesmo tempo, há outra coisa que me puxa noutra direcção.
O que me deixa especialmente contente é saber que agrado à mãe da Lina e a ela própria.
Isso tem importância para mim.
Não é apenas a Lina que me faz sentir desejado ou aceite. Saber que a mãe dela gosta de mim dá-me também uma espécie de segurança que ainda procuro noutras coisas. Depois de tudo aquilo que tenho pensado e de todas as dúvidas que tantas vezes me assaltam, saber que sou bem recebido por elas é uma coisa que me agrada.
Talvez seja por isso que continuo a querer estar ali, mesmo sabendo que estou a começar mal as aulas.
A verdade é que estou completamente “apanhado”.
Já não consigo fingir que não.
A Lina ocupa-me o pensamento, ocupa-me o tempo e, agora, começa também a ocupar o espaço que deveria pertencer às aulas. Sei que isto pode trazer problemas, mas neste momento ainda não encontrei maneira de equilibrar aquilo que devo fazer com aquilo que quero fazer.
E, por enquanto, quando tenho de escolher, já sei para que lado tenho tendência a ir.
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