Quando só ela me anima

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Quinta-feira, 27 de Outubro de 1977

A minha má vontade de ir às aulas persiste.

Já não é apenas uma vontade passageira de ficar mais um pouco com a Lina. Começo a sentir que há qualquer coisa em mim que prefere estar junto dela a cumprir aquilo que devia fazer. As aulas continuam ali, naturalmente, mas a minha cabeça parece estar noutro lugar. E quanto mais tempo passo com a Lina, mais difícil se torna contrariar essa vontade.

Ela própria diz que estou louco.

Talvez tenha alguma razão.

Não é muito sensato faltar às aulas por causa de uma rapariga, sobretudo quando eu próprio já reconheci que estou a começar mal o ano. Sei que me estou a prejudicar. Sei-o quando falto e sei-o depois, quando penso no que estou a fazer. Mas saber não chega para mudar aquilo que sinto.

E eu respondo-lhe que, por ela, falto às últimas aulas todos os dias.

É uma resposta que diz muito mais do que parece.

Não estou simplesmente a dizer que gosto de estar com ela. Estou a admitir que, neste momento, a vontade de a ver pesa mais do que aquilo que deveria pesar. Há qualquer coisa na sua presença que me prende e que me faz aceitar até aquilo que, noutras circunstâncias, talvez considerasse absurdo.

Hoje, porém, passei grande parte do dia aborrecido sem razão alguma.

Não aconteceu nada de especial que justificasse esse estado de espírito. Talvez por isso me tenha incomodado ainda mais. Quando não encontramos uma razão concreta para a nossa tristeza ou para o nosso mau humor, começamos a procurar dentro de nós aquilo que poderá estar a faltar.

O tempo também não ajudou.

Manteve-se todo o dia enevoado, fechado, sem aquela claridade que parece tornar as coisas mais fáceis. Um dia assim convida pouco à alegria. As horas passam mais pesadas e até aquilo que normalmente não nos incomoda muito acaba por nos aborrecer.

Andei, portanto, maldisposto, sem saber muito bem porquê.

Ou talvez saiba.

Talvez uma parte de mim já esteja demasiado dependente destes encontros. Quando não estou com a Lina, fico entregue aos meus pensamentos, às dúvidas, às inquietações e a tudo aquilo que tantas vezes me estraga o dia. Quando estou com ela, por outro lado, parece que tudo isso se afasta por algum tempo.

Foi assim que aconteceu hoje.

Só à noite, quando estive com a Lina, a minha boa disposição voltou.

É curioso como uma pessoa pode mudar tanto o nosso estado de espírito. Durante o dia, o nevoeiro lá fora parecia combinar com aquilo que trazia cá dentro. Depois encontrei-me com ela e alguma coisa mudou. Não precisei de uma resposta, nem de uma grande conversa, nem de qualquer acontecimento extraordinário.

Bastou estar com ela.

E talvez seja precisamente isto que me preocupa.

Estou a começar a perceber que procuro nela aquilo que me falta quando estou sozinho. É bom sentir que alguém nos consegue devolver a boa disposição, mas também sei que não devia deixar que tudo dependesse disso.

Ainda assim, hoje foi assim.

Passei o dia aborrecido e, quando finalmente estive com a Lina, voltei a sentir-me bem.


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