Uma hora roubada ao tempo

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Terça-feira, 25 de Outubro de 1977

A Lina já se encontra melhor, embora ainda coxeie. Depois do que lhe aconteceu, é bom vê-la recuperada, mesmo que os passos ainda não sejam os de antes. Fiquei naturalmente mais descansado ao saber que estava melhor, mas há qualquer coisa naquela maneira de andar, ainda com dificuldade, que me faz lembrar que ontem não foi um dia qualquer.

Hoje fui esperá-la à porta de casa quando chegou do trabalho.

Ela ficou surpreendida ao ver-me. Não contava comigo ali e talvez por isso a surpresa tenha sido maior. Eu também não precisava de nenhuma razão especial para ir. Queria vê-la, simplesmente. Talvez tenha sido essa vontade que me levou até lá antes de começar a pensar se devia ou não fazê-lo.

Apesar da surpresa, mostrou-se satisfeita por me encontrar.

E isso deixou-me contente.

Há pequenos gestos que dizem mais do que aquilo que esperamos. Às vezes basta a expressão de uma pessoa ao ver-nos, a maneira como nos recebe ou simplesmente o facto de ficar contente por estarmos ali. Não é preciso que aconteça alguma coisa extraordinária. Hoje não aconteceu. E, no entanto, aquele encontro teve para mim importância suficiente para ficar a escrevê-lo agora.

A Lina contou-me as desventuras do seu dia e eu contei-lhe as minhas.

Ficámos assim a conversar, quase uma hora.

Quase uma hora parece pouco quando se olha para o relógio, mas quando se está com alguém de quem se gosta o tempo tem outra maneira de passar. Há sempre qualquer coisa para contar, mesmo quando o que se conta são apenas os pequenos acontecimentos de um dia de trabalho, as coisas que correram mal, as contrariedades, aquilo que nos aborreceu ou simplesmente aquilo que nos aconteceu.

E talvez seja justamente aí que se encontra uma parte daquilo que procuro.

Não são apenas os momentos excepcionais que me aproximam da Lina. É também esta possibilidade de lhe contar o meu dia e de ouvir o dela. De partilharmos aquilo que, isoladamente, poderia parecer sem importância. Quando se gosta de alguém, até as pequenas coisas ganham outro valor porque deixam de ser apenas nossas.

Hoje estivemos quase uma hora assim.

Eu sabia que teria de a deixar para ir para a Academia e, à medida que o momento se aproximava, já me custava interromper a conversa. Tinha pena de me ir embora. Se pudesse ficar mais tempo, provavelmente ficaria. Mas havia a Academia e as minhas obrigações, e tive de partir.

Vim embora com pena.

Tenho cada vez mais dificuldade em deixar a Lina quando estamos juntos. Há qualquer coisa nestes encontros que me prende, talvez mais do que eu próprio quero admitir. Depois de tantos dias de dúvidas, de ciúmes e de pensamentos que me atormentam, estes momentos simples acabam por ter ainda mais força.

Hoje não houve grandes declarações nem respostas definitivas.

Houve uma porta, uma surpresa, duas pessoas a contarem uma à outra as suas pequenas desventuras e quase uma hora que passou depressa demais.

E eu fiquei com pena de a deixar.


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