Uma resposta adiada

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Segunda-feira, 24 de Outubro de 1977

A Lina magoou-se ontem e teve de ir a uma endireita, por isso não trabalhou durante a tarde. Quando fui esperá-la, às seis e um quarto, foi a irmã dela, Rosa Maria, quem me contou o que se tinha passado.

Assim que soube, fui logo a casa da Lina.

Encontrei-a já à minha espera, embora coxeasse por causa do que lhe tinha acontecido. A preocupação que trazia comigo por causa do que se passara ontem acabou por se misturar com outra preocupação, mais imediata. Ver a Lina assim, magoada, fez-me esquecer por momentos aquilo que tinha ficado entre nós no dia anterior.

Mas não por muito tempo.

Segundo aquilo que ela me disse, o que ontem contei não tinha ficado em águas paradas. As minhas palavras tinham chegado até ela e tinham provocado alguma coisa. Ela sentiu aquilo que lhe disse. Isso, por si só, já era uma resposta, embora não fosse ainda a resposta que eu esperava.

Pretende falar comigo a sós.

Não em casa dela.

Fiquei a pensar nisso. Depois de tudo o que ontem dissemos, saber que ela queria falar comigo sem a presença de outras pessoas fazia-me pensar que aquela conversa ainda não tinha terminado. Havia qualquer coisa por esclarecer, qualquer coisa que precisava de ser dita longe dos outros, sem interrupções e sem a facilidade de mudar de assunto.

E agora resta-me esperar.

Mais algum tempo, mais algumas horas, talvez mais alguns dias, durante os quais a minha cabeça vai certamente trabalhar mais do que devia. Conheço-me. Sou desconfiado e, ao mesmo tempo, pessimista. Quando não sei o que vai acontecer, tenho tendência para esperar o pior. É como se me fosse mais fácil preparar-me para uma má notícia do que acreditar numa coisa boa antes de ela acontecer.

A Lina já me disse que não precisava de me preocupar.

Mas eu preocupo-me.

Gostaria de conseguir aceitar simplesmente aquilo que ela me diz, sem procurar outras explicações, sem imaginar possibilidades que talvez nem existam. Ontem abri-me com ela e ela abriu-se comigo, hoje sei que aquilo que lhe contei não lhe passou ao lado. Devia ser suficiente para me deixar tranquilo.

Não é.

Talvez porque continuo à espera daquilo que realmente quero ouvir. E enquanto essa resposta não chega, fico entre aquilo que acredito e aquilo que temo.

Agora resta esperar pela conversa a sós que ela própria quer ter comigo.

Até lá, mais algum tempo para pensar — e eu sei que vou pensar demasiado.


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