O que fica por dizer

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Domingo, 23 de Outubro de 1977

Hoje foi o dia em que, finalmente, me abri com a Lina e ela comigo.

Há dias em que parece que as palavras se acumulam dentro de nós durante muito tempo, à espera de uma ocasião para saírem. Foi isso que aconteceu hoje. Falámos, dissemos muito um ao outro, talvez mais do que alguma vez tínhamos dito, mas, apesar disso, ficou ainda muito mais por dizer. É estranho como podemos passar tanto tempo junto de uma pessoa e continuar a guardar dentro de nós aquilo que mais desejamos que ela conheça.

Hoje fiquei a compreendê-la melhor. Pelo menos foi essa a sensação que trouxe comigo. Houve coisas que comecei a ver de outra maneira, talvez porque, desta vez, não fiquei apenas a imaginar aquilo que ela pensava ou sentia. Ela falou comigo e eu também lhe fiz ver as minhas intenções.

Precisava que ela soubesse o que penso, o que desejo e aquilo que tenho vindo a sentir. Não sei se consegui dizer tudo como queria. Há coisas que, quando chegam à boca, parecem perder a forma que tinham dentro da cabeça. Pensamos que sabemos exactamente o que queremos dizer e, quando chega o momento, as palavras saem incompletas, ou então ficam simplesmente cá dentro.

Por momentos continuo sem a compreender. Há atitudes suas que ainda me deixam confuso e que alimentam aquela desconfiança que tenho trazido comigo. Hoje, por exemplo, não me respondeu ao pedido de namoro mais uma vez. Fiquei à espera da resposta, talvez na esperança de que a próxima vez nos trouxesse aquilo que hoje não aconteceu.

Não sei exactamente o que devo pensar disso.

Ao mesmo tempo, há uma coisa que me passa pela cabeça e que quase me custa escrever, creio que, se lhe propusesse casamento, ela aceitaria.

É uma ideia estranha, sobretudo quando continuo sem saber se aquilo que sinto encontra nela a mesma certeza. O namoro, que para mim significaria já uma escolha e uma aproximação maior, ficou sem resposta, e, apesar disso, tenho a impressão de que, perante uma proposta ainda maior, ela talvez dissesse que sim. Não sei se isto faz sentido, mas é assim que hoje o sinto.

Talvez esteja novamente a tentar encontrar respostas onde ainda não existem.

Hoje não nos declaramos um ao outro. Não por falta de sentimentos, mas por falta de coragem. E talvez seja precisamente isso que mais me impressiona. Depois de tudo o que dissemos, depois de tudo aquilo que conseguimos compreender um do outro, ficaram ainda as palavras mais importantes por dizer.

Talvez um dia consigamos dizê-las.

Por agora, fico com aquilo que aconteceu hoje e com tudo o que não consegui dizer. Sei que muito mais diria, mas há sentimentos que não obedecem às palavras, por mais que tentemos encontrá-las.


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