Eu Pintor
Quarta-feira, 22 de Março de 1978
Hoje foi o aniversário da minha mãe. Trinta e oito anos.
Tal como no do meu pai, não se festejou. Nem bolo, nem velas, nem palavras. A casa esteve no mesmo ambiente pouco sociável de ontem, e ninguém falou do assunto. É o que é. Já sei que é assim.
De tarde, tinha combinado com o Zé Carlos irmos ao Porto. Esperei por ele horas. Não apareceu. Fui a casa dele e disseram-me que tinha acabado de chegar do Porto, tinha ido sem mim. Não sei se se esqueceu, se não quis, se foi outra coisa. Fiquei muito aborrecido, mas não disse nada. Vim para casa.
Foi uma tarde perdida. Passei-a à espera, e a espera, quando não dá nada, é a pior coisa que há.
Falando na Lina — que é o que me interessa — hoje estive quase para recomeçar a escrever. Se tivesse começado, teria escrito isto:
Estás sentada imóvel. Sou pintor.
Pintaria o sabor dos teus beijos,
a tua voz, o som dos teus passos.
Extasiar-me-ia com o som dos teus cabelos ao vento,
a cor dos teus olhos…
Escrevi isto e parei. Não sei se é um poema, se é uma carta, se é uma coisa que não devia ter escrito. É o que faria se fosse pintor e se ela estivesse sentada à minha frente. Mas ela não está sentada à minha frente, e eu não sou pintor. Sou só um rapaz que escreve no quarto, a olhar para uma folha em branco.
Hoje não a vi. Hoje esperei por alguém que não veio. Hoje foi o aniversário da minha mãe, e ninguém disse nada. Amanhã talvez vá ao Porto, sozinho.
Comentários
Enviar um comentário