Fiquei só

Sexta-feira, 19 de Maio de 1978

Hoje continuei a escrever a partir da imagem que tinha ficado de ontem. O vento levou quase tudo, mas ficaram algumas coisas na terra, como se ainda fosse possível agarrar aquilo que já desapareceu.

Foi assim que escrevi.


Nem tudo o vento levou
Ficou na terra o seu manto
O seu odor e o lenço vermelho
O meu coração palpita
Em cada brisa que passa
E depois fico quedo e mudo
Contemplando os trajes inertes
Que outrora baloiçavam
Na alegria do vento
Sorrindo ao Sol
E agora jazem a meus pés
Sem graça, de uma maneira estranha
Passo a mão nos meus cabelos desgrenhados
Tentando compreender
Mas eis que estranha mão invisível
Levantando da sua sepultura
O lenço e o manto
Enrolando-os no vento
E estes partem
Respondendo ao apelo do além
E o pesadelo termina
Fiquei só.

O silêncio que se segue à partida não é apenas o fim de uma ausência, mas o espaço onde aprendemos a habitar a nossa própria solidão.


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