Quase…
Sábado, 20 de Maio de 1978
Hoje continuei a escrever a partir daquele sentimento de estar sempre entre qualquer coisa e o seu contrário. Não era exactamente tristeza, nem revolta, nem vontade de fugir. Era quase tudo isso.
Talvez por isso tenha escolhido uma palavra que se repete quase até ao fim. Como se nada na minha vida chegasse verdadeiramente a acontecer por inteiro.
Um pesadelo, não de agora,
Mas de fundas raízes
Vivia num mundo, quase só
Quase triste, quase impossível de descrever
A vida era quase um erro
E os passos quase errados
Um falso caminho
A vida, a sociedade, tudo,
Não passou de um acidente quase natural
Esta selva de betão e vigas foi o meu berço
Em que cada qual se regia pela lei da sobrevivência
É tentadora a resistência,
Mas quase impossível
Nunca alguma teia teve bases tão fortes e seguras
A predestinação é quase errada
Pois só cai quem quer
Optando por quase vegetar
Ou servir os donos da teia
Vivi e nasci no mundo quase errado
Não foi vã a ilusão
A tentativa de quase libertação
Viver é quase sempre uma coisa que não se escolheu.
Nascemos dentro de uma teia que já estava tecida antes de nós, e a única liberdade que temos é a de decidir se ficamos presos ou se tentamos sair — sabendo que a tentativa também é quase sempre uma derrota.
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