Último sopro do Inverno
Quinta-feira, 18 de Maio de 1978
Hoje escrevi poucas palavras, mas ficaram presas a uma mesma lembrança. Uma vida que começa num instante e termina noutro, deixando pelo meio o tempo em que se viveu aquilo que parecia ser real.
Nasci quando me beijou
Morri quando me deixou
E vivi enquanto me amou
Não foi ilusão
Nem tão pouco um pesadelo
Foi uma sensação tão real
Como de espinhos roçando no corpo
Usava naquele tempo
Uma fita vermelha ao pescoço
Tornando mais bela
Aquela imagem a que me habituara
Estávamos no último sopro do Inverno
O vento fazia esvoaçar
Os seus cabelos dourados
Contra a paisagem de receosos malmequeres
O seu sorriso assemelhava-se
Ao canto de uma ave livre na imensidão do horizonte
E eu, ali sentado
Desfrutava dos prazeres
Que eram derradeiros
O céu escureceu
E a imagem esvoaçou
Estávamos no último sopro do Inverno.
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